15/09/2011


Não é que ele fosse especial, é que ele tinha sido o único até hoje que tinha lhe dado valor, não o real valor que no fundo ela sabia que possuia, mas algum valor. Ainda que todas essas constatações fizessem parte de um passado, revê-lo mexeu em algo dentro dela. Ela já não o achava feio (a vida tinha lhe ensinado a pagar caro pelos julgamentos que fazia precipitadamente), ela já não achava ninguém feio. Foi aí que seu desejo lhe armou uma armadilha e sonho após sonho, ato falho após ato falho ela foi se vendo apaixonar por alguém que sequer fazia parte da sua história. Ele era um parágrafo pequeno no meio de uma página inteira de clímax. E agora - como entender? - o protagonista toma pra si o papel principal e o príncipe sobe em seu cavalo branco e vem lhe buscar num sonho de uma noite de verão. Ele tinha o charme de todo anti-herói.


09/07/2011

Solidão por solidão
Prefiro é sentir sozinho
Sem correntes em meus pés
Voo como um passarinho
E pra não perder a fé
Minha oração meu hino
Canto enquanto voz tiver
Construindo o meu destino
Vejo a dor em seu olhar
Mas não posso resistir
Quando o vento me chamar
Meu caminho vou seguir
Sem sonhar eu vivo em vão
E é por isso que eu não quero mais
Viver da desilusão
E perder de vista a minha paz
Não tem laço, não tem lar
Não tem ouro, não tem pena
Que me impeça de voar
Nessa vida tão pequena



(Sérgio Pererê)

06/07/2011



Ela acordou, mas não levantou da cama. Ficou aproveitando os minutos que restavam antes que o sol da manhã alcançasse o seu rosto encostado no travesseiro, sem a pressa que normalmente lhe acompanhava. Fazia tempo que ela não ficava sozinha assim e já tinha até se esquecido de como era essa sensação. "Liberdade"- ela pensou. Durou pouco. Como acontecia todos os dias, começou a ouvir o barulho de gente andando pela casa, telefone tocando, carros e caminhões passando na rua. Logo escutaria os gritos dos garis passando e as músicas bregas do radinho de pilha da vizinha. Suspirou e levantou vagarosamente. Mais uma inspiração e seus ombros lhe doíam como facadas. Dormir não era mais suficiente para que descansasse.
Todos os dias havia alguém - ou alguéns - para lhe sugar a energia reclamando de dinheiro, de saúde, da vida e de não sei o quê mais. Todo dia ela doava toda sua energia para aqueles que lhe pediam e não cobrava sequer um porquê. Ia compensando tudo da sua forma: cigarro, chocolate e uma dose de conhaque.
Mas hoje havia acordada ainda meio zonza do porre de ontem e declaradamente cansada dessa rotina. Desejava mais que tudo um pouquinho de solidão. Ela nunca tinha visto a solidão como algo ruim e hoje, ah, hoje ela queria apaixonar-se por si mesma denovo, ler um livro, preparar algo pra comer, acender seu cigarro e ouvir o som do silêncio. Foi aí que o despertador tocou e a vida lhe enfiou mais um não goela abaixo.

29/06/2011


"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos com o que os outros fizeram de nós."