25/11/2013

(Poema em linha reta)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos

27/10/2013

Sigo me agarrando a qualquer possibilidade de amor, como se uma palavra ou um toque desfizesse toda frieza com que me acolheste. Sigo apressada, buscando qualquer palavra que me dê caminho para imaginar um abraço. Sigo sentindo a dor das palavras que disse, mesmo sabendo que dizem mais de você do que mim. Sigo sabendo que vou sozinha e contando com a sua companhia.
Você é o cara mais estupidamente inteligente que conheci. E o mais bonito. E o mais idiota. E o único que pode me oferecer abrigo nas noites de chuva. Um abrigo frio, sozinho e escuro, mas longe da chuva.

20/10/2013

Rezei a Deus para te esquecer, perder seu número, confundir seu endereço. Pedi para que o vento frio deixasse de entrar pela porta que você deixou aberta. Pedi para te perder. Supliquei para que meu coração deixasse de apertar toda vez que penso em você, para que seu rosto parasse de invadir meus pensamentos e que meu corpo deixasse de querer o seu. Pedi a Deusque me desse ar. Pedi pra entender o que te faz ficar, mesmo parecendo não querer. Pedi que me ajudasse a parar de buscar seus lábios sempre que a solidão viesse me visitar e que não tivesse mais vontade de ouvir sua voz a toda hora do dia. Pedi que a sua frieza e seu jeito rude fossem mais importantes do que as 2 ou 3 palavras carinhosas que me disse. Rezei a Deus para que a sua estupidez me fizesse desistir e que eu não pudesse mais enxergar no fundo dos seus olhos essa tristeza travestida de indiferença. Supliquei para que ainda houvesse tempo de voltar, para que eu conseguisse correr, mas enquanto rezava ouvi a voz suave de Deus me dizer: "Agora não tem mais jeito".

23/09/2013

Agora - despida, caída, ferida - não consigo me lembrar porquê deixei você entrar.
Não foi seu sorriso, seus olhos ou sua boca, que, apesar de serem belos, não tinham nada de especial.
Não foi o seu papo ou o seu groove, a delicadeza ou a inteligência. Não vi muito disso em você.
Com certeza não foi o jeito rude de falar das mulheres ou a frieza ao meu lado.
Talvez tenha sido o meu cansaço, que depois de tantos encontros e desencontros, só me fazia querer outro corpo colado ao meu.
Talvez tenham sidos os dias, meses ou talvez anos que desperdicei esperando que alguém viesse bater à minha porta.
Talvez tenha sido porque você foi o único que apareceu.
Quando abri os olhos só vi o vazio que havia em mim e, aflita, fui correndo te receber.
Fechei os olhos, abri a porta.
Me larguei, me esqueci.
Você me amou, me feriu e mais me amou. E então foi embora. Deixou a porta aberta.
Foi aí que percebi que tinha aberto mais do que uma porta.
Abri outra ferida em mim.